Conferência
A INTEGRAÇÃO POLITICA DAS COMUNIDADES CABOVERDIANAS NO MUNDO
Cabo-Verde, Cidade da Praia. 12/11/2009
Intervenção do Dr. Nuno Morais
Sarmento
Exmo.
Senhor Presidente da Associação Mais Portugal Cabo Verde
Exmo. Senhor Dr. Carlos Veiga – ex Primeiro Ministro de Cabo
verde
Exmos. Senhores oradores desta conferência internacional
Minhas Senhoras e meus Senhores
Começo por agradecer o convite que me foi feito para participar como
orador nesta conferência internacional, pela possibilidade de estar
num país de que gosto muito e não visitava já há
alguns anos; pelo gosto de ter como colegas participantes
nesta conferência ilustres personalidades, que são também amigos;
Como qualquer português que tenha memória das últimas três ou quatro
décadas vividas em Portugal, recordo-me da primeira vaga migratória
de cabo Verde, aliás a primeira vaga migratória, com significado, do
Portugal moderno, tornando os cabo-verdianos nos primeiros
imigrantes de um país tradicionalmente de emigrantes.
Um país, Portugal, que não tinha experiência ou estratégia para
acolher aqueles que começaram a chegar a partir da década de 1960,
sendo os cabo-verdianos o primeiro e mais numerosos grupo de
imigrantes desse fluxo migratório inicial.
Ausência de reflexão e resposta que se manteve por décadas, em bom
rigor até à última década do século XX, dependendo a integração,
económica, social e politica da comunidade cabo-verdiana em
Portugal, essencialmente, da memória histórica de dois povos que, na
sua relação directa e individual, se conhecem e reconhecem.
Desse período em Portugal recordamos a inestimável energia e boa
vontade de organizações da sociedade civil, da Igreja, de empresas a
autarquias, como não recordamos a afirmação de qualquer estratégia
integrada a nível nacional, que ponderasse os fluxos migratórios ou
dinamizasse o processo de integração das comunidades imigrantes.
Foi só com o crescimento e a afirmação da segunda geração, ou seja,
dos filhos daqueles que chegaram a Portugal nas décadas de 60 e 70;
e que coincidiu proximamente com a segunda vaga migratória que
Portugal recebeu na década passada e na presente, alargada agora,
entre outros, aos antigos países do leste europeu, que a situação,
lentamente, se começou a alterar.
Surgiram iniciativas em matéria de legalização e regularização de
imigrantes, como surgiram programas e intervenções destinadas aos
jovens filhos de imigrantes, mas ainda assim se manteve a ausência
de uma estratégia nacional de acolhimento e integração de imigrantes.
Meus caros amigos,
Era esta a memória que guardava quando, em 2002, assumi funções como
Ministro da Presidência do XV Governo Constitucional Português,
nessas funções cabendo a tutela dos assuntos da imigração.
E foi essa a realidade que encontrei.
O interface, ou seja, o atendimento directo e dedicado a um conjunto
de mais de 400.000 imigrantes que nesse momento residiam em
Portugal, limitava-se a um chamado Alto-comissário e quatro pessoas
que o secretariavam. No total, 5 pessoas, era o atendimento
exclusivo que Portugal dedicava a mais de 400.000 imigrantes.
Que não tinham o acesso à saúde garantido, quando não possuíam a
situação absolutamente regularizada.
Que pelo mesmo motivo não podiam inscrever os seus filhos na escola.
Que eram obrigados a descontar em Portugal para a Segurança Social,
mas que não podiam ter qualquer benefício disso quando regressassem
a cabo Verde.
Que não tinham direito, quando trabalhavam anos e anos em Portugal,
a chamar mulher e filhos para o pé de si.
Que não tinham, em nenhuma repartição do Estado, (do emprego, à
segurança social ou às finanças), um serviço de atendimento que lhes
fosse dedicado e às suas particulares dificuldades de língua ou
cultura.
Imigrantes que tratávamos assim, mas a quem, ainda assim, chamávamos
irmãos.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Tenho para mim que a politica não pode ser diferente da vida das
pessoas, e por isso, como acontece na vida das pessoas, mais do que
as palavras devem contar os actos.
Sucedi, como Ministro, a um Governo socialista que dava do
compromisso social e do respeito pelos outros, os exemplos que vos
citei.
Tenho por isso muita honra em ter participado num dos Governos
portugueses que mais trabalhou, positivamente, no acolhimento e
integração dos imigrantes, criando e consolidando, pela primeira vez,
uma verdadeira politica pública de imigração em Portugal.
Hoje, e resultado do trabalho de uma rede que criámos em parceria
com os serviços do Estado e organizações da sociedade civil, nenhuma
das situações que mencionei se mantém, e mais de 2000 pessoas, nos
Centros Nacionais de apoio ao Imigrante, nos centros locais em todas
as capitais de Distrito, no Observatório da Imigração, ou nos
Centros de Acolhimento de Imigrantes em risco, trabalham, permanente
e exclusivamente, na resposta aos problemas dos imigrantes.
Hoje, é com muito gosto, pela certeza da diferença que isso fez na
vida de muitos imigrantes, e de muitos cabo-verdianos, que vejo a
organização independente Migration Pollicy Group, no seu índice de
politicas de integração de migrantes (MIPEX 2007) dar a Portugal o
segundo lugar entre os 25 países da UE.
Hoje, finalmente, é com grande satisfação que vejo a Organização das
Nações Unidas, com base num questionário feito a peritos de 42
países, entre os quais peritos da Suécia, Canadá, China, Inglaterra
e Alemanha, vir a atribuir a Portugal a melhor classificação na
atribuição de direitos e serviços a estrangeiros residentes.
Satisfação pelo reconhecimento do trabalho, mas principalmente
satisfação porque essa distinção significa que hoje Portugal oferece
aos seus imigrantes, melhores condições de assistência social, de
acesso à saúde e à educação, ou de reconhecimento de direitos
laborais.
Dignificar as condições de vida dos imigrantes, é afinal, dignificar
o próprio país que assim agir.
E minhas Senhoras e meus Senhores
Desse tempo, de desafios complexos e de grande exigência, fiquei a
conhecer muito bem a comunidade cabo-verdiana.
Diga-se, que na época da vigência do XV Governo constitucional
português, era a comunidade mais numerosa, especialmente concentrada
na grande área metropolitana de Lisboa, dispersa em menor número por
Distritos ou Regiões como o Algarve.
Comunidade de homens e de mulheres, de varias idades e condições
sociais, com instituições representativas fortes como as suas
associações de imigrantes, tão dispares como a Morabeza com trabalho
notável no recenseamento eleitoral para o voto local, ou a
Unidos de Cabo Verde com notável trabalho na área da
integração escolar e cultural de jovens africanos, entre muitas
outras.
Comunidade Cabo-verdiana que, mesmo na reivindicação – por exemplo
da alteração das chamadas leis da imigração e da nacionalidade –,
nunca deixou de apresentar propostas claras e com fundamentos
sólidos, que lhe acrescentaram sempre muita credibilidade.
Comunidade cabo-verdiana com forte sentido identitário, com auto
estima e gosto, sempre e em qualquer momento, de assumir a sua
identidade cultural e linguística. Da sua gastronomia, da sua arte,
do seu crioulo, da “saudade” que tão bem nos tem cantado essa grande
diva da musica cabo-verdiana, que é Cesária Évora.
E por tudo isto também, é justo que se diga nesta conferencia
internacional, promovida pela Associação Mais Portugal, que sendo
actualmente Cabo Verde um bom exemplo de “governança” à escala
africana e mundial, a integração das comunidades cabo verdianas no
mundo, deve ser entendida como decisiva para a solidificação do bom
estatuto internacional deste país.
Portugal, Holanda e Estados Unidos da América, são os países onde a
diáspora cabo verdiana tem maior peso.
Os imigrantes cabo verdianos, por via da diáspora, deverão ser
vistos como embaixadores anónimos da identidade e da cultura deste
país. E nessa identidade, há que destacar um elemento comum, que é a
nossa língua, o português.
Por tudo isto, meus Senhores e minhas Senhoras
Os cabo verdianos são um activo espalhado pelo mundo, são um activo
do vosso país, mas são também um activo da lusofonia e do espaço
lusófono. Daí que faça todo o sentido que Cabo Verde assuma no
espaço politico da CPLP maior influência, por forma a que o futuro
politico da lusofonia seja uma realidade assumida por todos os
países da língua de Camões.
O espaço lusófono carece cada vez mais de instrumentos, ao nível das
politicas publicas como ao nível da intervenção das ONG`s, para
melhorar nuns casos e criar noutros casos, instrumentos como a
efectiva implementação do acordo ortográfico e a criação do estatuto
jurídico do cidadão lusófono.
Cabo Verde, tem a oportunidade de desempenhar um papel à medida da
qualidade da sua democracia e de acordo com a sua ambição de
estatuto internacional.
Nas migrações, pode muito bem fazê-lo, de forma positiva em conjunto
com Portugal.
É que as migrações e o desenvolvimento estão intimamente associados.
No Século XXI, gerir melhor as migrações internacionais ao nível do
segundo pilar das políticas públicas assentes na integração, só
poderá, como científica e politicamente se tem comprovado, trazer
benefícios.
Daí a enorme oportunidade de uma conferência como esta.
Muito obrigado pela vossa atenção.
