AMPCV -  Associação Mais Portugal Cabo Verde

Conferência

A INTEGRAÇÃO POLITICA DAS COMUNIDADES CABOVERDIANAS NO MUNDO

Cabo-Verde, Cidade da Praia. 12/11/2009

 


Intervenção do Senador Marc Pacheco


 

Gostaria em primeiro lugar por começar por agradecer aos organizadores da Associação Mais Portugal - Cabo Verde o convite que me endereçaram para hoje estar aqui. Particularmente, gostaria de agradecer ao Dr. Nuno Manalvo pela sua visão e liderança na organização desta conferência. Como luso-americano, sinto-me extremamente honrado em ter sido escolhido para participar nesta iniciativa, promovendo uma visão da integração no processo político norte-americano, segundo a minha própria perspectiva. Estou por isso humildemente na presença de Sua Excelência Dr. Aristides Lima, Dr. Carlos Veiga e do Dr. Nuno Morais Sarmento para, em conjunto, poder desenvolver uma reflexão conjunta aqui, em Cabo Verde.

 

Apesar das comunidades de cabo verdianos florescerem um pouco por todo o globo, uma forte ligação existe entre esta comunidade e o Estado de Massachusetts, onde eu vivo, como resultado da sua significativa concentração na Nova Inglaterra. Existem mesmo alguns dentro dessa comunidade com um papel activo dentro do processo político norte-americano e durante muitos anos, no âmbito de um movimento mais lato e com origem nos anos 60. Conjuntamente, na sua participação individual ou como membros de grupos activistas, os American-Cape Verdeans exerceram os seus direitos democráticos, reconhecendo a importância da sua integração cívica.

 

A democracia americana é feita a partir da integração cívica, que começa com cada cidadão, e constitui o coração da política norte-americana. Loius Brandeis, um antigo membro do Supremo Tribunal de Justiça Americano, captou esta máxima na sua citação: “O mais importante actor político é o cidadão privado”. Cada cidadão representa uma voz crucial – a voz de livremente poder expressar a sua opinião e de poder votar – o que contribui para o bem geral dos Estados Unidos da América. Apesar de só os cidadãos com mais de 18 anos poderem votar, o envolvimento cívico está aberto a todos. A simples expressão política ou profissional, que cada indivíduo detém, ajuda a moldar ideias e pode promover alterações através de todos os níveis do governo.

 

O bom governo não pode ser alcançado apenas por si. Ele resulta de uma acção colectiva, daquela que reúne as pessoas de todas as origens em torno do bem comum. O conjunto das opiniões e das ideias que emergem dessa interacção e diálogo entre os cidadãos e os líderes do seu governo consegue produzir soluções que são mais transparentes e inclusivas. Idealmente, elas procuram melhor servir as pessoas dos Estados Unidos da América.

 

Os Americanos não têm apenas direitos, em minha opinião, têm também responsabilidades. A sua principal responsabilidade repousa no exercício do direito de voto. Os cidadãos têm que registar em pessoa ao nível municipal ou através do National Voter Registation a sua escolha eleitoral. Os cidadãos norte-americanos participam no processo eleitoral a nível municipal, estadual e federal. Como é que cada um decide onde votar e como votar em muito depende do seu nível de informação e de integração no próprio sistema.

 

Os Estados Unidos são compostos por milhares de organizações que estão na raiz da educação e do envolvimento no sistema político. A grande riqueza que assenta na diversidade dos cidadãos americanos contribuiu para que grupos culturais e sociais formados não apenas com o propósito de criarem mudanças na América mas também para criarem mudanças em todos os governos do mundo. Um excelente exemplo disso mesmo ocorreu em meados dos anos 90 quando as comunidades luso-americanas, entre grupos sociais activistas, organizações de direitos humanos e deputados estaduais protestaram contra a ocupação indonésia de Timor Leste. Todos estes grupos exigiram uma mudança na política americana que denuncia-se e compromete-se as acções do governo Indonésio contra o povo de Timor Leste, permitindo que se organizassem eleições livres e justas no território. Utilizando os eleitos aos parlamentos estaduais como veículos para que se operassem essas mudanças, estes grupos receberam apoio através da elaboração de propostas legislativas que conduziram a audiências públicas e há introdução de legislação que alertava para as injustiças cometidas naquele território de Timor Leste, gerando grande consenso público a favor da sua causa e contra a política da indonésia.

 

Tudo isto foi um esforço conjunto rumo à mudança: mudança na política americana ao mesmo tempo que ajudava a trazer a justiça a um Timor Leste independente, facto alcançado em 2002. Como luso-descendente, este assunto foi de excepcional importância pessoal para mim, uma vez que tive a oportunidade de liderar a frente de batalha operada no Parlamento de Massachusetts. Foi no nosso Parlamento que se iniciou o processo, fomos nós que o lideramos todo o movimento nos EUA, onde pouco depois milhares de pessoas iriam participar, engrossando as fileiras da mudança em defesa da justiça e dos direitos humanos dos timorenses, logrando vergar a Indonésia a aceitar eleições livres em Timor Leste. Não só foram aprovadas medidas legislativas no meu estado de Massachustts, mas todos os lideres parlamentares luso-descendentes, em diversos outros estados, como a Califórnia, Connecticut, Nova Jersey e Rhode Island, reproduziram esta acção nesses mesmos estados. A rede entre os luso-descendentes a nível dos parlamentos estaduais providenciou uma organização que despertou o interesse dos meios de comunicação social sobre este assunto, criando uma bola de neve que não mais viria a parar. O Bispo Carlos Belo e o actual Presidente da República de Timor Leste, José Ramos Horta, foram nomeados prémios Nobel da paz em 1996, no mesmo ano em que essas leis estaduais em diversos estados dos EUA eram aprovadas. Como resultado desta acção que atravessou todo o território dos EUA, juntamente com a distinção que recaiu sobre o Bispo Belo e Ramos Horta, criaram um impacto mundial de grande dimensão…e tudo começou no meu estado de Massachustts pela minha acção e de um conjunto de activistas sociais. Estes esforços que começaram a nível local tiveram um impacto, primeiro na política dos EUA e depois no mundo inteiro.

 

Com base neste exemplo, podem agora melhor perceber a importância do activismo dos cabo verdianos na América, ilustrando este caso o poder da globalização dos compromissos cívicos e da sua mobilização política. Os cidadãos não estão restringidos a participar nas causas locais ou nacionais, mas estão sim aptos a poder fazer a diferença em muitos países e em muitas causas. Esta mobilidade foi muito potenciada pela internet e pelas redes sociais tecnológicas. Mas o envolvimento e o compromisso político, esses é que não estão apenas sujeitos a um país ou a uma causa.

 

A capacidade de ser politicamente activo requer uma sensibilização e compreensão do sistema e como ele funciona – tal como jogar futebol requer o conhecimento das regras e uma consciência das diferentes posições no campo. Os Estados Unidos da América são uma democracia representativa, onde os cidadãos têm a capacidade de eleger os funcionários que os representam e servem os seus interesses. Este sistema confere aos cidadãos os direitos fundamentais definidos na Constituição americana, originalmente assinada em 1787, e o Governo deve agir de modo a proteger esses direitos.

 

O governo federal é composto por três poderes: o poder legislativo, que compreende a Câmara dos Deputados e do Senado, o poder executivo, composto pelo Presidente, Vice-Presidente, e as agências governamentais e, finalmente, o ramo judicial, que está dividido em três instâncias. A vontade dos eleitores é representada por um sistema que é delicadamente equilibrado. No ramo legislativo, que é referido como o “Congresso”, os seus 435 membros são eleitos a cada dois anos e representam a base populacional (por distrito eleitoral). Em contraste, o Senado representa os interesses do Estado e tem apenas 100 membros, 2 de cada Estado, eleitos para mandatos de seis anos. Esta estrutura de três ramos foi erguida de modo a evitar abusos de poder, desvios ou corrupção, através de um sistema de verificações mútuas, pesos e contrapesos (checks and balances) entre os órgãos políticos. Apesar de não ser perfeito, o sistema de pesos e contrapesos constitui um recurso inestimável para o sistema norte-americano.

 

Ainda que outros partidos políticos desempenhem um papel importante nos processos eleitorais, o sistema americano é desenhado para uma estrutura bipartidária. O Partido Democrata representa no contexto dos EUA o centro-esquerda e o Partido Republicano situa-se, ideologicamente, no centro-direita. A actual disposição do Congresso divide-se entre 256 democratas, 177 republicanos e dois lugares livres, na “Casa dos Representantes” (a Câmara baixa); e, 58 Democratas, 40 Republicanos e 2 independentes, no Senado (a Câmara alta). Os Membros do Congresso são eleitos através de eleições abertas e livres, semelhante na forma às eleições de Cabo Verde. Os candidatos a Presidente e Vice-Presidente são nomeados oficialmente nas convenções partidárias nacionais, mas são determinados nas eleições primárias do partido. O Presidente não é eleito através de voto popular, mas por um Colégio Eleitoral. O Congresso é eleito directamente pelo povo, fazendo da eleição do ramo executivo uma fusão. Os Eleitores que compõem o Colégio são escolhidos ao nível do Estado, tendo cada Estado no Colégio um número de eleitores idêntico ao número de Senadores e Representantes que tem no Congresso, o qual se baseia nas populações do Estado. Estes Eleitores são determinados especificamente pelo povo nas eleições estaduais. Habitualmente, os votos dos Eleitores do Estado seguem para o candidato que recebe o maior número de votos em todo o Estado.

 

As campanhas políticas nos EUA evoluíram para uma das práticas mais sofisticados e caras de qualquer país democrático. Os dias de simples prospecção já são idos. Na era moderna as campanhas dependem de esforços de captação de recursos financeiros complexos, tempo de antena na comunicação social e da capacidade de um político para se articular com o público certo e os consultores certos. Os consultores políticos ajudam essencialmente a "vender" o candidato: gerem a imagem do político; coordenam os comités de financiamento; asseguram as “oportunidades mediáticas”; identificam os eleitores chave e, posteriormente, constroem a mensagem base. Como medidas de salvaguarda, foram constituídas comissões ou comités estaduais e nacionais, de modo a manter o processo justo e ético.

 

Como em Cabo Verde, a liberdade de imprensa é assegurada através da legislação. Os meios de comunicação, que são predominantemente privados, desempenham um papel fundamental, pois a informação sobre questões políticas estabelece as prioridades e as questões principais da campanha. Paralelamente, estabelece as expectativas e define uma agenda nas mentes dos eleitores, à qual os candidatos precisam necessariamente de se adaptar. O ciclo de 24 horas de notícias veio esbater as fronteiras entre as esferas pública e privada, transformando os também os modelos tradicionais de noticiários. Os média não apenas informam os eleitores mas, as novas tecnologias, como o Facebook e o Twitter, são um método de angariação virtual que oferecem formas inovadoras de ligação aos eleitores. Estes novos media, que são conhecidas como redes sociais, têm a capacidade de organizar comícios e desenvolver apoio aos candidatos. A grande quantidade de informação e a velocidade a que a informação é entregue continuará a ter impacto nas práticas de campanha nos próximos anos.

 

Como resultado do envolvimento cívico e dos seus processos eleitorais, os americanos estão a criar mudança internamente e a fazer a diferença no estrangeiro. Como disse o Presidente Barack Obama, "A mudança não virá se esperarmos por outra pessoa ou outra hora. Nós somos os únicos que estivemos à espera. Nós somos a mudança que buscamos", e eu não poderia estar mais de acordo. Os americanos aproveitaram esta oportunidade para impulsionar a mudança há um ano atrás, com a histórica eleição do presidente Obama.

 

Os Estados Unidos da América e o mundo começam agora a testemunhar e experimentar o impacto do que será ter nos Estados Unidos um País mais pacífico e próspero. Apesar de não ser perfeito, o nosso sistema oferece escolha, por vezes leva algum tempo para se chegar a essa escolha, mas tal normalmente deriva de um debate saudável. Nada na política americana acontece por acaso, é tudo uma questão de escolha do povo. A virtude da escolha é que ela traz a possibilidade de mudança, e a mudança como frisei, começa com o envolvimento. Fóruns internacionais, como este, fornecem oportunidades valiosas para o envolvimento político. Ele oferece um diálogo interactivo que enriquece as práticas democráticas e os avanços da perspectiva de mudança. Estou muito satisfeito e muito honrado, que me tenham oferecido a possibilidade de dar a minha perspectiva e contribuir para este diálogo.

 

Muito obrigado a todos, estarei disponível para qualquer questão.